Investimento em startups: você só aprende fazendo!

Eu invisto em startups desde 2015. O que começou como uma curiosidade e um potencial “plano de aposentadoria” hoje se tornou um negócio bem mais sério, dado o comprometimento, tanto de capital quanto de tempo que tenho feito.

No entanto, como muita gente já sabe, investir em startups é um negócio de altíssimo risco e eu ouvi outro dia uma definição muito interessante para empreender no Brasil:

“Empreender no Brasil é como pular de um penhasco sem paraquedas… aí você vai construindo o paraquedas na descida e obviamente espera que ele funcione antes que seja tarde demais”…“e caso você se esborrache no chão, é hora de levantar, tira a poeira do que sobrou e voltar ao penhasco pra pular de novo!”

A lógica de investir em startups é similar à de empreender, porém com a vantagem de poder diminuir alguns riscos. Quando você procura estabelecer um portfólio de investimentos em startups, e com a devida diversificação de risco, é possível que 20% do portfólio, ou até menos, seja suficiente para você conseguir retornos muito bons que cubram os prejuízos dos outros 80%. Assim, voltando ao exemplo do paraquedista acima, podemos fazer a seguinte analogia: é possível, patrocinar o pulo de 10 empreendedores ao mesmo tempo, e esperar que 2 consigam que o paraquedas funcione!

Em uma análise fria, e para quem tem formação financeira, o conceito de portfólio faz todo o sentido racionalmente, porém é necessário assumir que você não se preocupa com os 80% que literalmente se esborracharam. Preocupar-se apenas com os 20% que dão certo não é uma análise completa do assunto porque não se leva em consideração o valor do dinheiro no tempo e o próprio tempo investido nos negócios que fracassaram.

Ainda, é muito bonito e interessante falar de investimentos em startups, principalmente quando estamos em uma excelente fase do ecossistema no Brasil dados os investimentos de fundos famosos, e aos novos unicórnios que têm aparecido, mas o investidor em startup só entende o tamanho e o impacto do risco quando um dos seus empreendedores se esborracha porque o paraquedas não abriu o suficiente!

Mesmo com toda a experiencia de gestão de portfólio, se você tiver que dar o famoso “write-off” no seu investimento, não é fácil, principalmente quando você dedicou não apenas capital, mas principalmente seu tempo, em reuniões, discussões estratégicas e mentorias. Você acaba se sentindo parte do time empreendedor e o capital acaba retornando de uma forma ou de outra, mas o tempo dedicado não volta atrás e é por isso que você precisa tirar lições preciosas de cada evento que não deu certo…para fazer valer a pena o seu tempo dedicado àquele projeto.

No meu caso, ainda não tive tempo de ter grandes perdas, porque meu portfolio ainda é muito novo, mas uma das minhas primeiras startups não foi para a frente como planejado, e tirei algumas lições do assunto que queria dividir aqui com vocês:

1. O time de empreendedores é tudo

Devemos apostar no jockey e não no cavalo, mas quando se tem um “time de jockeys”, precisamos também olhar como eles se comportam como time, como é o relacionamento entre os membros do time, e principalmente se eles estão alinhados com o objetivo da empresa no longo prazo.

Neste meu exemplo, o time original acabou se desfazendo pela saída de um deles. Claro que isso pode acontecer com qualquer um, retenção de talentos é uma preocupação grande em qualquer time, e acontece nas grandes empresas também, só que numa startup você não consegue substituir pessoas como em uma multinacional, onde já se tem plano de sucessão e todos os processos são conhecidos. Em uma startup, a saída de uma pessoa chave, seja sócio ou não, pode quebrar completamente a empresa.

Além desse problema de retenção, o time de sócios tem outro problema que é o relacionamento entre eles. Se isso não estiver equacionado desde o início, qualquer discussão mais dura entre os sócios pode gerar a saída de uma pessoa chave.

E como evitar isso? Infelizmente não temos como evitar. Mas podemos minimizar o risco se procurarmos avaliar alguns pontos antes do investimento quanto ao time: Relacionamento entre eles, visão de longo prazo que eles têm quanto ao negócio, situação pessoal de cada um (principalmente financeira), etc. Hoje eu procuro fazer uma entrevista com os membros do time como parte da avaliação da startup antes de decidir pelo investimento.

Se você consegue identificar algo, não significa necessariamente que não deve investir. Apenas que precisa tomar mais cuidado, acompanhar, estar preparado. Ter consciência do risco é o primeiro passo para saber mitigá-lo.

2. Cuidado com a emoção e a euforia do time que está ganhando..

Esse ponto é muito parecido com investimento em ações. Você já percebeu que quando uma determinada ação está subindo na bolsa é a hora que a maioria das pessoas está comprando? O famoso “efeito manada”!

No caso de uma startup isso acontece em dois momentos: quando muita gente do seu grupo de investimento está investindo, e aí você entra na situação tipo FOMO (fear of missing out), ou seja, não quer ficar de fora, ou quando você está vendo o negócio crescer, vem a oportunidade de um segundo round, e você decide entrar de novo só porque o negócio está crescendo…

O negócio estar crescendo deve ser uma razão para se fazer um follow on, mas não deve ser a única razão! Aqui vale a pena revisar novamente o plano de negócios, valuation, e onde vai ser aplicado o investimento por exemplo. Ou seja, é a mesma coisa de um investimento pela primeira vez, com uma grande vantagem: se você está acompanhando a empresa, você tem a chance de investir de uma forma muito mais pragmática que na primeira vez, pois agora você conhece o negócio “por dentro”, como o time está trabalhando, etc.

Nesse meu exemplo, infelizmente aprendi errando…não fiz o dever de casa e acabei investindo em um follow-on sem analisar com profundidade. A empresa parou a operação seis meses depois.

3. Execute o “stop loss” no ponto que você previu…

Aqui temos também uma semelhança com investimento em ações: É bom estabelecer um ponto de saída (stop loss) e saia nesse ponto!

Parece obvio, mas o nosso envolvimento emocional com a empresa faz com que a gente sempre tenha a esperança que a coisa vai retomar. E aí você continua colocando dinheiro em um investimento que não vai para a frente.

Nesse caso, é melhor sair no ponto planejado e aceitar a perda. Se você fez o seu dever de casa desde o início, essa perda é parte do seu risco de investimento, e vai ser coberta eventualmente por um outro investimento do seu portfólio.

No meu caso, foi mais um pouco de dinheiro investido (!) no meu aprendizado! Mesmo com vários sinais de que a empresa não estava no rumo certo, acabei colocando um pouco mais de dinheiro para fazer “um último teste” que (re)confirmou o que já estava claro.

Enfim, todos sabemos que qualquer investimento tem riscos, e investir em startups não é diferente. É importante que saibamos muito bem quais os riscos que estamos correndo, e como estamos diluindo esses riscos em um bom portfólio. Investir com cuidado traz a satisfação do aprendizado e de ter contribuído com o sucesso do ecossistema de inovação, compensando a eventual perda pequena de uma parte do seu portfólio. Continuo acreditando no time de empreendedores do meu exemplo, são pessoas incríveis, extremamente competentes, e espero voltar a investir neles em outra oportunidade.

Mas como em qualquer negócio, a experiencia conta e muito! Depois de doze startups investidas diretamente, mais de quarenta via fundos específicos e algumas centenas analisadas ao longo de quase cinco anos, hoje conseguimos apoiar com segurança os empreendedores e investidores que buscam entender bem o funcionamento do ecossistema de startups, esclarecendo dúvidas de captação, assessorando o investimento e a construção de um portfólio equilibrado, e conscientizando investidores dos ganhos e riscos de perda do capital em um determinado investimento.

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